Domingo, Julho 05, 2009
Quarta-feira, Novembro 05, 2008
cum grano salis
Mas devagar com o andor! Embora tenha o incontestável mérito de reconduzir as extravagâncias do nosso admirável mundo laico às suas bases mais tradicionais, à oportuna observação devem ser acrescentados quatro intempestivos escólios que, muito embora não a desmintam, mitigam-na (ou radicalizam-na, sob outro aspecto, conforme nossa posição em relação à arca), de modo que são de mister nesses tempos de ações afirmativas.
Em primeiro lugar, é de se fazer notar a força persuasiva que critérios quantitativos possuem nessas horas tenebrosas. Critérios quantitativos sim, e supostamente justíssimos, pois a salvação dos bichinhos, ao menos nesse caso, não exigiu ínfimo resquício de mérito individual. Não se salvaram por obras, é claro, e tampouco parecem ter sido salvos por algum tipo de predestinação. Tudo se passa como se, no fim das contas, a salvação randômica fosse o modelo mais verossímil de justiça em tempos de desespero.
Em segundo lugar, quando a porca torce o rabo — e ela sempre o torce —, os critérios quantitativos não são tãããão exclusivamente quantitativos assim, e logo se descobre que some animals are more equal than others. Porque para cada sete casais de animais puros (ex omnibus animantibus mundis tolle septena septena), um único casalzinho impuro foi aceito (de animantibus vero non mundis duo duo). O Genesis nada conta sobre os protestos dos leitões, por exemplo, mas é de se deduzir que tenham gritado até os pulmões estarem estufados de chuva.
Em terceiro lugar, e isso talvez soe politicamente incorreto, é muito importante observar que a retórica do quantitativo não se mostra bazofiadora apenas quando se saca da manga a distinção entre bichos puros e impuros (e qual mente perturbada ter-se-ia esquecido dela?!), mas os septena septena e os duo duo são apanhados em masculum et feminam (vão dizer que vocês acharam mesmo que a arca era lugar pra sodomia?!). Os impuros, enfim, até são salvos na razão de 1/7, mas os bichos de cardápio desnaturado, o que decerto incluiu vegetarianos...
Em quarto e último lugar, nunca pode ser esquecido que, ainda que a salvação quantitativa seja uma alternativa com precedentes bíblicos, uma tal idéia só entra em circulação quando o próprio Deus se arrepende de ter criado o homem na terra (pænituit eum quod hominem fecisset in terra), quando Seu coração se enche de profunda dor (et tactus dolore cordis intrinsecus); quando a coisa fica preta, enfim, e o mundo está prestes a acabar.
Quarta-feira, Maio 30, 2007
A desventura dos batismos
Se por um lado a enumeração extensiva de propriedades não faz surgir a essência do definido, por outro a indicação da raiz é facilmente ignorada pelo glutão que se perde na admiração dos exuberantes e inumeráveis frutos, de variadas tonalidades, dimensões, texturas, aromas e sabores. O glutão deixa de enxergar a árvore tão logo embrenhe seu focinho nos galhos a devorar a diversidade dos frutos, pois se esqueceu de que as diferenças só podem ser especificadoras quando se reconduzem a gêneros próximos. Somente a generalidade do gênero enraíza e radicaliza a especificidade das diferenças. Sem o lastro genético, as propriedades não indicam nada de essencial: apenas mascaram-no.
Sexta-feira, Novembro 24, 2006
Da delicadeza
Delicadeza que se expressa na afetada reivindicação por respeito e na virtualmente ilimitada capacidade de compreensão de uma suposta alteridade. O mundo se tornou de fato tão delicado que desapareceram como num piscar de olhos os diversos códigos de delicadeza que as gerações mais antigas cultivaram a um preço e esforço que mal conseguiríamos conceber. Hoje é delicado ser informal. Se tudo mergulhou na aura da informalidade — da linguagem aos sentimentos, passando pelos gestos e gostos, vestuário e compromissos — não é exatamente por termos nos embrutecido, mas por termos nos tornado delicados de fato, num sentido que causaria náuseas a homens que iam de cartola ao teatro e mulheres que usavam espartilho. Pois então a delicadeza era um modo possível de comportamento, e não uma propriedade das pessoas. O sentido de códigos de delicadeza era a explicitação não de uma natureza simples e obviamente delicada, mas da cultivada capacidade de agir delicadamente. Somente nesse sentido a delicadeza poderia aparecer como algo gracioso, pois tornada essencial dificilmente se pode diferenciá-la da mera frouxidão.
Não precisamos mais agir delicadamente porque nos tornamos delicados de fato. É como se os lábios não mais precisassem sorrir graciosamente porque todo o resto já sorri estupidificado. Com mais um pouquinho de dedicação a humanidade realizará em breve o supremo ato de delicadeza, e dará uma generosa gorjeta aos seus carrascos.
Sábado, Novembro 11, 2006
Das políticas sociais
Sábado, Agosto 05, 2006
Da impiedade dos bonzinhos
Às vezes os demônios corrompem o espírito daquele que, em suas práticas cotidianas, sempre foi e continua sendo incorruptível. E aí se instala um abismo, abismo que reduz a virtude ao senso de correção, reduz o coração sensível à mente honesta, a justiça à legalidade e a caridade ao altruísmo: abismo demoníaco, cuja radicalidade é se tornar tão mais invisível quanto mais se aprofunda e suas margens se distanciam.
Os crimes jamais ameaçaram o sentido de justiça: o que o ameaça é sua redução à legalidade. E é por causa desse abismo que as pessoas meramente corretas, honestas e fraternas são muito mais perigosas do que a canalha oportunista. O oportunista sabe o mal que faz e o faz de modo deliberado; embora seja moralmente desprezível, não é espiritualmente perigoso. Ele faz o mal porque quer fazê-lo, porque não se importa ou porque o deseja — e ainda que se suponha que o criminoso não seja capaz de evitar seu crime, ele há de não ser criminoso sempre. O sentido mesmo de seu oportunismo implica que ele o seja apenas quando lhe convém.
Domingo, Julho 30, 2006
Dos conhecimentos intestinos
Todas as publicações se prestam a esse trabalho a um só tempo digno e repugnante, à semelhança de uma coprocultura, destinado apenas a homens de constituição gástrica demasiado peculiar. Contudo, as publicações periódicas, em particular, revelam os limites da possibilidade de uma desregrada dieta. Os periódicos se distinguem das demais publicações porque nessas o princípio de expelição é interno, de modo que se prestam à observação da consciência que uma época tem sobre si, enquanto que naqueles, os periódicos, o princípio de expelição é externo (determinado pela própria periodicidade, tamanho, temática e público-alvo do jornal, por exemplo), o que faz com que a imperiosa necessidade de publicação obrigue a uma regurgitação involuntária de seus entulhos intestinos e inconscientes, mais ou menos como se através da publicação de seus jornais uma sociedade se encontrasse numa espécie de eterna diarréia induzida.
Um material não substitui o outro: é confrontando o que se pretendeu com o que se precisou dizer que o estudioso descobre o engodo de seu paciente, na discrepância entre o que se encontra na amostra fecal e aquilo que, supostamente, o paciente acredita ter ingerido.
Quarta-feira, Junho 14, 2006
Da Transparência
É como aquela moça que entra no café em que estamos, suas formas são lindas, seus traços delicados. Os cabelos podem escorrer macios pelos ombros, o caminhar erótico sobre os saltos, um vestido bonito revela as pernas macias, o decote atrai o olhar, talvez tenha aquele perfume de água e sabonete e, com tudo isso, talvez até nos arranque um sorriso e torça-nos o pescoço com algum resquício de discrição, mas não nos fará levantar e ousar um diálogo. Pois seus olhos são transparentes, sua alma é diáfana. Nós a fitamos e a atravessamos sem qualquer refração. E como que sem querer, com o peso da inevitabilidade das desgraças, nós sabemos, com ou sem consciência disso, de que já conhecemos o lugar de onde viriam todos os seus pensamentos e palavras. Sabemos já demais para que alguma promessa possa ser feita. Ela pode nos sorrir, e com isso nos trazer os vapores de uma ébria alegria, um agitar no corpo e no espírito, mas seu sorriso é transparente e nada promete: ele nasce e morre ali, na superfície dos seus lábios.
Segunda-feira, Junho 12, 2006
To see a World in a Grain of Sand...
Quando a chave é perdida o resultado é claro: a vanidade invade o mundo como um fungo que vai minando o sentido de toda existência, o homem se torna – com suas idéias, afetos, e ações – uma “besta sadia”, um “cadáver adiado que procria”, pois o infinito numérico dessa duração obviamente não pode ser agarrado por uma existência finita, e nada do que acontecesse pelo meio do caminho teria ainda algum sentido. Tudo se esvai e se nega; uma certa ironia se salva enquanto uma nebulosa reivindicação de sentido ainda bruxuleia num recanto da alma humana, mas mesmo essa ironia se dissolve tão logo se volte para si e aquela reivindicação seja de vez silenciada. Poucos são os passos que levam do barroco ao nihilismo. E ainda assim se continua a pensar eternidade como tempo infinito em vez de ligá-la à necessidade.
O que importa, o que sempre importou, é a experiência da eternidade - não como a série cronológica infinita e fugaz de instantes que se devoram uns aos outros, principalmente quando desse Cronos nenhum Zeus é prometido - mas sim como a experiência da necessidade radical, que rasga essa série infinita e por nós inapreensível e se desloca para uma outra esfera, onde tempo não é mais questão.
Duratio est indefinita existendi continuatio, per aeternitatem intelligo ipsam existentiam, quatenus ex sola rei aeternae definitione necessario sequi concipitur, tempo como mera medida da duração, eternidade como identidade entre essência e existência: foram as preciosas lições de Spinoza que entraram para os subsolos de uma Modernidade revolucionária que seguiu um caminho bem diferente, apostando no tempo como realizador da natureza e escada da redenção.
Quinta-feira, Junho 01, 2006
Vanitas vanitatum
O esquecimento daquilo que perdemos acompanha a ilusão de que tudo podemos ter — senão de fato, pelo menos de direito. Nosso tempo oferece a convicção de que é possível a existência sem cessões. E a arrogância dos possessos desmemoriados se mostra na satisfação com que desfrutam o que lhes resta, convencidos de que barganharam a própria alma, de que enganaram os demônios, de que a vida lhes saiu uma pechincha, simplesmente porque não conseguem se lembrar do que pagaram.
Por trás de toda arrogância se esconde a baixa auto-estima: somente a certeza de que a sua alma não valia muitos trocados é que permite que o demente acredite que não a vendeu.
Sábado, Maio 20, 2006
Esmola aos Sacerdotes
Terça-feira, Abril 11, 2006
Höre! Höre! Höre! Alles was ist, endet. Ein düst'rer Tag dämmert den Göttern
E não é, afinal, a inexistência dessa voz o grande problema?
Terça-feira, Dezembro 13, 2005
A astúcia dos afásicos
O primeiro, instalada uma distância intransponível entre si mesmo e o texto, procura falar de um não-lugar. Sua missão é antecipar o que está por vir quase como se não fizesse parte de todo o espetáculo, como se fosse um olho desavisado de um deus onisciente que, meio que por acaso, tivesse tombado desde sua perspectiva eterna sobre aquele fragmento de pensamento e, até com certa displicência, deixasse escapar para os mortais uma antecipação do que estaria por vir.
O segundo rompe a linearidade e fala de um antes que já deve ser um depois. Seu lugar é o durante. Como o contraponto de uma sonata, abre um jogo com o texto e procura torcer a vista do leitor. Ele sabe que o texto não dá conta daquilo que quer agarrar. Matreiro que é, corre a volta no campo dos sentidos e, de longe, grita para o texto: aquilo que o texto queria agarrar cai numa cilada, fica entre a gritaria do título e do texto e, se não chega a ser dito, é tocado em seu silêncio.
Na verdade, todo título – mesmo o francamente ruim - cumpre sempre as duas missões, ainda que eventualmente de forma precária.
Raro é encontrar o leitor que ouça a gritaria.
Da civilidade
Sexta-feira, Dezembro 02, 2005
Por trás do rigor da tolerância
- Tu generalizas... – sentenciam livorosos.
Se o estômago vos permitir, tentai fazer com que entendam que, em geral, discurso individualista, particular ou especial são meros pomposos nomes para designar a boa e velha fofoca.
Terça-feira, Novembro 22, 2005
Os insultos do nosso tempo
Estamos no tempo sombrio em que o desempenho das funções essenciais arrebata corações. Seria engraçado – insultante, na verdade - dizer que um determinado piloto de aeronaves é um bom piloto apenas porque é capaz de decolar, pilotar e pousar sem levar à morte dezenas de pessoas. Dizei que uma comida é boa porque alimenta bastante e que aquela pedra é sensacional porque se pedrifica exemplarmente!
A máxima destinação nunca se esgota no mero exercício de uma função – ainda que esse exercício tenha se realizado de forma numericamente superior ao ordinário. Afinal, um escritor que escreve bem é só um tantinho melhor – se chegar a ser algum tantinho, enfim - do que um imbecil diligente em sua imbecilidade.
Uma história mal contada:
Segunda-feira, Novembro 14, 2005
O Ödipuskomplex do Racionalismo
Ab-surdus: aquilo que está para além de nossa surdez, nossos sentidos, lá onde eles já não mais alcançam. Sua presença, contudo, nunca foi um risco à audição. Muito pelo contrário: o absurdo sempre fora a derradeira fronteira que demarcava rigidamente um campo de positividade. A impossibilidade de qualquer outra possibilidade, anulação das estruturas de constituição de um discurso, o limite depois do qual todas as narrativas haveriam de se dissolver.
Ao estabelecer que, não importando de onde se partisse, nem tudo poderia ser dito, o absurdo era o espaço da negação, da grande interdição, que submetia cada voz a uma determinação que, em lhe ultrapassando, concatenava-a à dignidade e ao valor de uma eternidade. Negativo comum de todas as vozes, a presença do absurdo era o campo comum de todas as perspectivas, onde todas se faziam irmãs através de suas negações. Sim, ponto arquimediano às avessas, que fundava indiretamente a possibilidade e a dignidade do que seria dito ao demarcar aquilo que não seria: raductio ad absurdum.
Um dia, contudo, quando se quis alterar o mundo, os homens absorveram o absurdo dentro da racionalidade e, de um só golpe, aniquilaram ambos. O absurdo não foi superado, mas suprimido. Condicionando o absurdo às determinações de uma dada perspectiva, tornaram-no uma ficção qualquer, um capricho regional, quase uma gracinha, já sem qualquer autoridade sobre as outras aberturas de sentido. Órfãs e - vale até mesmo dizer, com um quê de psicose -, as narrativas todas se espalharam em infinitas direções: não havia mais lugares proibidos e, conseqüentemente (o que já era tarde demais para que compreendessem), não havia mais justificativas para que se assentassem em lugar algum.
O absurdo foi o pai da razão.
Sábado, Novembro 12, 2005
Isso que também se chama amor...
Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
De lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
Mon amour"
Jaques Prévert
Sexta-feira, Novembro 11, 2005
A Experiência e o Perigo
Como motivar um inseto?
Caso contrário, se as garrafas são infinitas e incomensuráveis e nenhuma imagem comum de mundo as fundamenta, nada, nada nessa já então maldita existência poderia justificar que a mosca procurasse voar para fora de sua garrafinha.
Qualquer palavra proferida, principalmente a que se vendesse como filosófica, já valeria tanto quanto um relincho.
Sexta-feira, Novembro 04, 2005
Pequena Grande História dos mundos
Quinta-feira, Novembro 03, 2005
A Filosofia no Séc. XX
A fábula é bastante precisa: foi uma criança que deu o primeiro passo e bradou, com toda a coragem dos que pouco têm a perder, que o rei estava nu, pelado!, desencadeando, após alguns instantes de hesitação, a sonora, descontraída e um tanto quanto estúpida gargalhada do povo.
Por inúmeras gerações, a história encantou crianças de todas as terras, crianças maravilhadas com a audácia do pequeno herói e envaidecidas com a idéia de que foi justamente um pequenino o que teve, ao que parece, a coragem de dizer o que todos já sabiam. Os adultos, contudo, deveriam compreender, ao contar essa história, que absolutamente não se trata de coragem, mas só e tão somente da explosiva combinação de inocência e irresponsabilidade.
Ora, ninguém jamais ouviu o que aconteceu com o reino após o divertido evento. Não me tenhais mal. É compreensível – e é até mesmo louvável – o gesto da criança. Afinal, se as coisas são como são, alguém precisa dizê-lo. No entanto, o ridículo – não obstante não menos compreensível – é a reação da multidão.
Não sejais palhaços! Antes de rirdes de um rei pelado, tende por perto um bom alfaiate (bem como o valor justo a pagar por trajes reais).
Terça-feira, Novembro 01, 2005
literatura pequena
Contudo, essa é a tarefa dos nobres em sua sutileza. O que se encontra, ordinariamente, passa longe de apropriações. ‘Por que se arriscar a montar o cavalo, quando se pode tentar envenená-lo?’, assim pensam os ressentidos. Proliferam-se como mofo as vozes das minorias enquanto minorias, a lamentação esverdeada dos rastejantes que, com aversão metonímica, do ódio contra a opressão vão ao ódio contra a própria grandeza sem desconfiarem que em sua estupidez trabalham contra si mesmos e contra todos.
Numa palavra: fora tanta afetação! No dia em que a mulher for menos mulherzinha; e o gay, menos veado; e o negro, menos crioulo; e o idoso, menos velhinho; e os pobres, menos coitados; e a existência, em geral, menos carnavalesca, então talvez todos sejam capazes de tomar parte, desde suas especificidades engrandecedoras, na unidade do projeto de nossa cultura.
Dos Pactos
Sábado, Outubro 29, 2005
Revolucionários
Quinta-feira, Outubro 27, 2005
A tolerância demoníaca
Quarta-feira, Outubro 26, 2005
Quinta-feira, Outubro 20, 2005
Os niilistas e suas palavras
Talvez ajudasse — o conselho é de Schopenhauer — caso se dedicassem ao aprendizado de línguas estrangeiras. E eu acrescento: geometria, meus filhos! Línguas estrangeiras ajudam a aprender a separar as palavras dos conceitos que elas representam; a geometria, a compreender a consistência intrínseca de um conceito; e aqueles que de ambas as operações não são capazes se encontram prestes a acreditarem que o fato de gritarem a plenos pulmões alguma coisa como ‘eu concebo um círculo quadrado!’ seja o bastante para que estejam a conceber algo.
O exorcismo, nesse caso, consiste em mostrar ao possesso que não obstante possa juntar palavras tanto quanto lhe apraza, não pode fazê-lo com conceitos. Não importa a quantidade da pirraça: que ele esperneie, grite, urre, arranque os cabelos, role pelo chão, chore, gema, repita a noite inteira e faça os amigos repetirem, e faça mesmo o mundo inteiro repeti-lo, e nisso acreditar, e que pessoas se matem por essas quimeras — o conceito do círculo continuará pela eternidade incompatível com o conceito do quadrado, ouvidos moucos para toda essa falta de compostura, não importa quantas vezes lhes mudem os nomes ou os declarem unidos. Words, words, words.
O mesmo vale com a verdade. O plural da palavra é truque simples da nossa gramática; o plural do conceito, uma quimera.
Um niilista é um moço endemoninhado que vos fala como que de círculos quadrados.
Os que escrevem com palavras
Segunda-feira, Outubro 17, 2005
Do Horário de Verão
Os dias amanhecem mais cedo no verão. As noites são menores. O ar é mais quente, as pessoas mais rápidas, os sorrisos mais estúpidos, os cardápios são mais leves no verão.
O verão é o tempo dos maricas.
O auto-elogio da estultícia
É
— É
A
Sexta-feira, Outubro 14, 2005
Por que ler os clássicos?
Quinta-feira, Outubro 13, 2005
Blablablices
Domingo, Outubro 09, 2005
Effectûs cognitio à cognitione causae dependet, & eandem involvit
Se
—
Respirai
— Responda-me,
Sexta-feira, Outubro 07, 2005
Das traduções
Uma má
O
Uma má
Quinta-feira, Outubro 06, 2005
Heimweh
Fazer-se em casa por toda parte, primitivo impulso de colonização, tornar o outro parte do mesmo, em uma idéia: dom(us)-esticar. Por essa razão Odisseu é o padroeiro de todos os filósofos, o mais eloqüente ícone disso que é ou foi a Filosofia. O impulso de ir além sendo norteado pela saudade da pátria. Um dia o viajante chega em casa, retorna à mesmidade, mas ele próprio já não é mais totalmente o mesmo, pois se alterou junto à alteridade que domesticou. Seu regresso torna a casa mais rica, repleta de experiências outras que coletou, que iluminam e alteram a mesmidade. Para tanto, contudo, é preciso infidelidade para consigo; em algum grau, esquecimento de si.
Em contexto totalmente diverso, Goethe disse substancialmente a mesma verdade: aquele que não conhece línguas estrangeiras, não conhece nem mesmo a própria língua. É isso: a estrangeiridade é a mediação necessária, o espelho negativo no qual Calvino disse que o viajante reconhecia o pouco que era seu descobrindo o muito que não tivera e que não teria.
Domingo, Outubro 02, 2005
La momia de la filosofia
"La
Pero si alguien es hoy capaz de hacer una filosofia, de filosofar en ese único auténtico sentido, esto es, dicho concretamente, sin ocultación, sin atenuamiento, se es capaz de filosofando con el mayor rigor hacer llorar, y hacer reir y hacer estremecerse alos oyentes, no por capricho, no por artificio, pura y simple, y rigorosa y exclusivamente filosofando ¿qué se diría de él? ¿Qué cara pondrían las gentes? ¿Qué extrañeza no sentirían y qué espanto y que risa, viendo que de pronto, la momia, el ridículo esqueleto que se enseñaba en las cátedras y que ‘no iba con nosotros’ comenzaba a moverse de verdad y a mirar y a ver y hacer ver y a decir, decires terribles, decires dramáticos, decires joviales que se apoderaban de nosotros, que nos poseían como posee a cada cual su propria y personal vida, por tanto que casi desde el primer instante entraba en nosotros con violencia a la vez dolorosa y deliciosa y se quedaba allí, dentro de nosotros, para simpre — es decir, que cada día la filosofia, al concluir la lección, no se quedaba en la cátedra, como un ave disecada en el museo de historia natural, sino que ‘iba con nosotros’?"
Ortega y Gasset
Terça-feira, Setembro 27, 2005
Os jilós hão de ser poetas
É nesse sentido e com essa admiração que o caso de um filósofo mentalmente retardado, como Mr. Peter Singer, deve nos encher de admiração e alegria. Trata-se do desdobramento dos encantos da Natureza, seu processo de contínuo aperfeiçoamento das espécies!
Um dia, haveis de ver, até os jilós conseguirão escrever belos poemas, e nosso mundo será finalmente uma gracinha.
Quarta-feira, Setembro 21, 2005
Dos Escritores Talentosos
O
Didatismo da Canalhice
Quinta-feira, Setembro 15, 2005
Dos demônios e seus sorrisos
Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert, es kommt aber darauf an, sie zu verändern, murmurou-se certa vez. O murmúrio fez-se grito, o grito fez-se ação, os demônios sorriram. Quem, senão os espertos e inexistentes demônios que tomam conta de tudo, poderia esperar dos filósofos algo diferente da contemplação teorética que, de um jeito ou de outro, fundava a essência do que tinham a fazer? O apelo retomava, de modo quase explícito para quem tem olhos um tantinho atentos, a vetusta separação entre teoria e prática, essência e aparência, forma e matéria. A retomada, contudo, nunca teve outra função senão o sorriso dos demônios.
Largai as interpretações do mundo, o verbo da vez é verändern. Ingenuidade ou parvoíce: pelo menos uma das duas é necessária para traduzi-lo por transformar. O que há de mais essencial na expressão se perde, escapa por entre os dedos frouxos da ignorância quando perde de vista o mais importante de tudo: o outro. Muito mais do que uma transformação, uma Veränderung é uma alteração.
As alterações não são, rigorosamente falando, meros acidentes de uma substância, são já substituições. A outrificação do outro o leva às suas extremas possibilidades, como que virando-o pelo seu avesso. Alterar uma substância, que é em si alteridade, é conduzi-la à máxima radicalidade de sua estrutura até dissolvê-la sobre si mesma dando lugar a uma nova. Os demônios, todavia, não nos pedem que alteremos substâncias: alterar o mundo, o mundo!
A questão, entretanto, é bem mais grave do que uma má tradução pode dar a entender a princípio. A questão, toda a questão, é que não há o outro do mundo, uma vez que não pode haver o outro do que é a condição mesma da possibilidade de alteridade. Alterar o mundo não passa de um eufemismo barato para aniquilá-lo.
Das Schlangenei
Há muito medo amorfo e desesperança. Breve é o caminho que vai da desesperança ao desespero. Estais certos de que sabeis o que podem os desesperados? Quão longe vosso olhar histórico é capaz de alcançar?
Um sem número de utopias de bolso se oferecem em qualquer sinal de trânsito. Pregadores de todas as formas, há um verdadeiro buffet de deuses à escolha dos famintos. Ah, foram-se os tempos em que as revoluções eram apanágio dos astros! Os filósofos se cansaram de interpretar o mundo e quiseram… alterá-lo. Os pregadores não mais apenas pregam e tampouco continuam sendo pregados. Eles agora fecham teatros e cinemas, eles dominam as rádios, as televisões, as editoras. Eles fundam partidos.
Lembremo-nos do filme. É como um ovo de réptil. É apenas um ovo, mas o embrião já traz todas as características do adulto, e se desenvolve tácito, quase imperceptível, e nasce pronto para provocar destruição.
Segunda-feira, Setembro 12, 2005
Der Todesrausch
Sábado, Setembro 10, 2005
Dos Superlativos
Prestai atenção à facilidade ladina com que os íssimos afloram às vossas bocas! Dizeis às pessoas, com toda a costumeira espontaneidade da estultícia, que são belíssimas, inteligentíssimas, ou demais adjetivos que o valham — já que todos se prestam à manobra —, mas sabeis, ou poderíeis sabê-lo se fôsseis mais sutis, que elas são apenas dignas dos adjetivos frugais, que não lhes pagassem tamanhas flexões, ou que no máximo, no melhor dos mundos possíveis, mereceriam um robusto intensificador. Superlativos nunca!, pois são sempre insultos velados. O que acontece, se me cabe explicá-lo, não é as achardes belíssimas, mas apenas bastante belas, simplesmente belas talvez, suficiente ou quase suficientemente belas em tantos outros casos, e no assombroso vácuo de outros quaisquer predicados a beleza que era ponto, às vezes mero cisco, revela-se a expressão máxima daquela medíocre qüididade.
O que de exagerado temos a dizer é apenas um subterfúgio para não confessarmos o vazio absoluto de outras coisas a serem ditas, quer esteja esse vazio no objeto elogiado, quer esteja, é bem verdade, em nós mesmos.
Quinta-feira, Setembro 08, 2005
Descatastrofização
A
A
Segunda-feira, Setembro 05, 2005
Spasimi d'ira... spasimi d'amore!
Uma montagem da Tosca como a de Benoit Jacquot caminhava com firmeza em direção à perfeição. Elenco, regência, soluções cênicas, figurino, orquestra, tudo ia maravilhosamente bem até que um imperdoável descuido transforma o clássico de Puccini num dramalhão à la novela das oito.
Certo, concedamos: Puccini, não fosse a música, nunca estaria muito distante de se confundir com uma telenovela: Mimi é uma chata na maior parte do tempo, Cio-Cio-San desperta tanta pena que quase nos irrita e Calaf por muito pouco não vira um galã babão por cuja desgraça torceríamos por puro sadismo. As figuras, contudo, guardam sua dignidade em detalhes que, se perdidos, arruínam a obra inteira num compasso. É o caso da Tosca de Jacquot. A indicação no libreto é clara:
“E avanti a lui tremava tutta Roma!”, diz a bela Tosca diante do cadáver do pérfido Scarpia. Está saindo do gabinete quando — seu instante de redenção, o instante que salva toda a obra — volta-se para o corpo do barão, acende à sua cabeceira duas velas que estavam à mesa do jantar interrompido, apanha um crucifixo da parede e coloca sobre o peito do homem que tentou estuprá-la e assassinar seu marido.
Não, as heroínas de folhetim e de telenovelas não são capazes dessa cena. Ao menos, não da forma sem pieguice e sem caridade estupidificada com que Floria Tosca vela o corpo que acabou de assassinar. E são justamente esses trinta segundos de cena que a versão de Jacquot, de forma extremamente sintomática, suprimiu sem mais nem menos.
Lembro-me, se falamos desses naufrágios a partir de sutilezas, de uma já clássica desgraça que acomete, de vez em quando, algumas montagens de Hamlet. No cinema (as clássicas versões de Olivier e a de Zeffirelli são apenas dois bons exemplos) ou no teatro, não é incomum removerem a cena final em que Fortinbras restitui a ordem ao caos. O pequeno lapso transforma, em menos de um minuto, o que é a maior tragédia da modernidade num fuleiro draminha pequeno burguês.
Domingo, Setembro 04, 2005
Dos relativistas
É claro que ninguém disse isso. Uma tal assertiva não apenas viola a inteligência primitiva como invialibizaria qualquer constituição, qualquer processo vital, inviabilizaria mesmo sua própria enunciação. Ninguém disse, nem o próprio relativismo. Criaram-se, todavia, as possibilidades de dizê-lo, ou melhor dizendo, eliminaram-se as possibilidades de refutá-lo. Não no sentido de que tais conclusões passem por verdade (esse não seria o pior dos mundos possíveis), mas no sentido de que a própria idéia de "verdade" perde seu valor.
Entretanto, como já se disse, nenhum relativista concordaria com isso. Porque não há relativistas. Assim como, rigorosamente (e o advérbio aqui não é nada mais, nada menos do que tudo o que se perde), não se pode dizer de alguém que é um suicida até que esteja morto, não se pode dizer de alguém que é um relativista enquanto vive, fala, escolhe o sabor do sorvete ou se apaixona.
Quem se diz relativista é apenas alguém que ainda não se esclareceu.

