Descaminhos

"Man muß Flügel haben, wenn man den Abgrund liebt"

Domingo, Julho 05, 2009

Tour de force

A verdade não é de todo refratária a certas manipulações: omissões aqui, ênfases ali. Distorções. Como muito bem exemplifica a cartografia, às vezes é a mentira que diz a verdade, e o faz em momentos em que a própria verdade, se falasse, confundiria. Porque a verdade sempre teria coisas demais a dizer. E porque as mentiras mais abomináveis são, em geral, feitas com a verdade e, muitas vezes, com a verdade, ali cristalina, sem qualquer distorção.
A diferença entre um mapa que salva e a pior das perfídias é que esta diz meramente a verdade, de modo cru - e por isso cruel -, di-lo com a pose afetada da autoridade que só mesmo um fragmento da mais genuína verdade é capaz de oferecer, ao passo que aquele, reconhecendo-se modestamente falsificador, coze e cose o que importa, alimenta e agasalha, orienta.
A saúde de um recorte, portanto, é uma questão de torque: uma questão de momentum.

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

cum grano salis

Não faz muitos meses que um amigo antropólogo, que é versado tanto nas Escrituras quanto nas bestialidades de que são capazes os homens, e que anda a estudar, salvo engano, o que há por baixo dos hábitos sacerdotais, comentou argutamente sobre a possibilidade de se justificar pela Teologia a iniciativa das ações afirmativas. Segundo ele, está tudo tradicionalissimamente documentado nos capítulos 6 e 7 do Genesis, quando, sob diviníssimas instruções, Noé proporciona a cada espécie, a partir de critérios universais e quantitativos, sua oportunidade de sobrevivência.
Mas devagar com o andor! Embora tenha o incontestável mérito de reconduzir as extravagâncias do nosso admirável mundo laico às suas bases mais tradicionais, à oportuna observação devem ser acrescentados quatro intempestivos escólios que, muito embora não a desmintam, mitigam-na (ou radicalizam-na, sob outro aspecto, conforme nossa posição em relação à arca), de modo que são de mister nesses tempos de ações afirmativas.
Em primeiro lugar, é de se fazer notar a força persuasiva que critérios quantitativos possuem nessas horas tenebrosas. Critérios quantitativos sim, e supostamente justíssimos, pois a salvação dos bichinhos, ao menos nesse caso, não exigiu ínfimo resquício de mérito individual. Não se salvaram por obras, é claro, e tampouco parecem ter sido salvos por algum tipo de predestinação. Tudo se passa como se, no fim das contas, a salvação randômica fosse o modelo mais verossímil de justiça em tempos de desespero.
Em segundo lugar, quando a porca torce o rabo — e ela sempre o torce —, os critérios quantitativos não são tãããão exclusivamente quantitativos assim, e logo se descobre que some animals are more equal than others. Porque para cada sete casais de animais puros (ex omnibus animantibus mundis tolle septena septena), um único casalzinho impuro foi aceito (de animantibus vero non mundis duo duo). O Genesis nada conta sobre os protestos dos leitões, por exemplo, mas é de se deduzir que tenham gritado até os pulmões estarem estufados de chuva.
Em terceiro lugar, e isso talvez soe politicamente incorreto, é muito importante observar que a retórica do quantitativo não se mostra bazofiadora apenas quando se saca da manga a distinção entre bichos puros e impuros (e qual mente perturbada ter-se-ia esquecido dela?!), mas os septena septena e os duo duo são apanhados em masculum et feminam (vão dizer que vocês acharam mesmo que a arca era lugar pra sodomia?!). Os impuros, enfim, até são salvos na razão de 1/7, mas os bichos de cardápio desnaturado, o que decerto incluiu vegetarianos...
Em quarto e último lugar, nunca pode ser esquecido que, ainda que a salvação quantitativa seja uma alternativa com precedentes bíblicos, uma tal idéia só entra em circulação quando o próprio Deus se arrepende de ter criado o homem na terra (pænituit eum quod hominem fecisset in terra), quando Seu coração se enche de profunda dor (et tactus dolore cordis intrinsecus); quando a coisa fica preta, enfim, e o mundo está prestes a acabar.

Quarta-feira, Maio 30, 2007

A desventura dos batismos

O bom nome deve dar a conhecer a coisa nomeada; mas o que é esse conhecer? As descrições sempre padecem de uma tensão fundamental entre o impulso analítico e o genético: aquele, ávido por diferenciações, tenta fazer justiça a todas elas, mas acaba eclipsando o que há de essencial; esse, por outro lado, precisa deixa escapar algumas nuances e, sob o olhar do analítico, tornou-se até mesmo grosseiro, mas, com suas desajeitadas generalizações e metonímias, põe em jogo a radicalidade da questão.
Se por um lado a enumeração extensiva de propriedades não faz surgir a essência do definido, por outro a indicação da raiz é facilmente ignorada pelo glutão que se perde na admiração dos exuberantes e inumeráveis frutos, de variadas tonalidades, dimensões, texturas, aromas e sabores. O glutão deixa de enxergar a árvore tão logo embrenhe seu focinho nos galhos a devorar a diversidade dos frutos, pois se esqueceu de que as diferenças só podem ser especificadoras quando se reconduzem a gêneros próximos. Somente a generalidade do gênero enraíza e radicaliza a especificidade das diferenças. Sem o lastro genético, as propriedades não indicam nada de essencial: apenas mascaram-no.

Sexta-feira, Novembro 24, 2006

Da delicadeza

Talvez a brutalidade do século XX seja o fator responsável pela suprema delicadeza de nosso tempo. Tal brutalidade é hoje incompreensível. A palavra evoca uma vaga e rarefeita idéia que, embora não mais comunique efetivamente uma experiência, ainda cumpre bem o seu papel nos discursos de lamúria e de escândalo. Se antes de sua exaustiva repetição tal idéia foi de fato compreensível um dia, ou se pelo menos sua palavra se prestava a indicar a positividade de uma ocorrência nefasta, esse decerto não é mais o caso para as gerações contemporâneas, que não mais são capazes de extrair dela qualquer sentido, pois o mundo se tornou delicadíssimo, a despeito ou por causa de sua história recente e tão supostamente brutal.
Delicadeza que se expressa na afetada reivindicação por respeito e na virtualmente ilimitada capacidade de compreensão de uma suposta alteridade. O mundo se tornou de fato tão delicado que desapareceram como num piscar de olhos os diversos códigos de delicadeza que as gerações mais antigas cultivaram a um preço e esforço que mal conseguiríamos conceber. Hoje é delicado ser informal. Se tudo mergulhou na aura da informalidade — da linguagem aos sentimentos, passando pelos gestos e gostos, vestuário e compromissos — não é exatamente por termos nos embrutecido, mas por termos nos tornado delicados de fato, num sentido que causaria náuseas a homens que iam de cartola ao teatro e mulheres que usavam espartilho. Pois então a delicadeza era um modo possível de comportamento, e não uma propriedade das pessoas. O sentido de códigos de delicadeza era a explicitação não de uma natureza simples e obviamente delicada, mas da cultivada capacidade de agir delicadamente. Somente nesse sentido a delicadeza poderia aparecer como algo gracioso, pois tornada essencial dificilmente se pode diferenciá-la da mera frouxidão.
Não precisamos mais agir delicadamente porque nos tornamos delicados de fato. É como se os lábios não mais precisassem sorrir graciosamente porque todo o resto já sorri estupidificado. Com mais um pouquinho de dedicação a humanidade realizará em breve o supremo ato de delicadeza, e dará uma generosa gorjeta aos seus carrascos.

Sábado, Novembro 11, 2006

Das políticas sociais

Pesquisas de ponta indicam que pacientes terminais precisam de cortinas azul-turquesa, e a cama em que estão morrendo deve ser posicionada com a esquerda da cabeceira virada para a janela, desde que os pés da cama não fiquem voltados para a porta do quarto, obviamente (caso tal configuração não seja possível, o quarto precisa ser substituído incontinenti). Lençóis de algodão com listras amarelas são também de extrema importância, principalmente nos casos de metástase, e a roupa de cama deve ser trocada duas vezes ao dia (ou mais, conforme a necessidade, se o corpo estiver expelindo líquidos fedorentos). Caso partes do corpo já apresentem quadro de putrefação, recomendam-se arranjos de rosas e copos-de-leite à direita do paciente. Quando o fígado parar de funcionar, o cabeleireiro deve ser chamado imediatamente e, após um novo penteado, todas as energias hão de se concentrar na realização de uma cirurgia plástica no nariz (ou nas rugas peri-oculares, em caso de lepra, se o nariz já tiver caído). Após o falecimento, recomenda-se que o corpo seja banhado com camomila, que é um excelente calmante para a pele.

Sábado, Agosto 05, 2006

Da impiedade dos bonzinhos

O definhamento do espírito atinge o limite de seu perigo quando os demônios colocam os homens decentes a seu serviço. Porque quando um homem de bem, o cara bonzinho, bacana mesmo, aquele que é um bom colega, decente pai de família, trabalhador honesto, sujeito em tudo correto e confiável, por todos respeitado, que nunca incomodou os vizinhos e foi até muitas vezes sinceramente prestativo, quando esse cara burocraticamente "muito legal" perde a autonomia de seu espírito ele se torna um lacaio da banalidade do mal, e isso sem que deixe de ser todo aquele "muito legal" que sempre foi. E é aí que está o grande perigo.
Às vezes os demônios corrompem o espírito daquele que, em suas práticas cotidianas, sempre foi e continua sendo incorruptível. E aí se instala um abismo, abismo que reduz a virtude ao senso de correção, reduz o coração sensível à mente honesta, a justiça à legalidade e a caridade ao altruísmo: abismo demoníaco, cuja radicalidade é se tornar tão mais invisível quanto mais se aprofunda e suas margens se distanciam.
Os crimes jamais ameaçaram o sentido de justiça: o que o ameaça é sua redução à legalidade. E é por causa desse abismo que as pessoas meramente corretas, honestas e fraternas são muito mais perigosas do que a canalha oportunista. O oportunista sabe o mal que faz e o faz de modo deliberado; embora seja moralmente desprezível, não é espiritualmente perigoso. Ele faz o mal porque quer fazê-lo, porque não se importa ou porque o deseja — e ainda que se suponha que o criminoso não seja capaz de evitar seu crime, ele há de não ser criminoso sempre. O sentido mesmo de seu oportunismo implica que ele o seja apenas quando lhe convém.
Enquanto isso, aquele que é politicamente correto não o é porque o quer e não pode deixar de sê-lo: sua convicção é a do herói, mas seu heroísmo é burocrático. Ele faz o que tem de ser feito, mas raramente tem de fazer o que faz. E assim ele é o próprio berço do mal que não enxerga, o ninho que aquece os ovos da serpente que ele é incapaz de compreender. Seu espírito dormente não percebe o abismo de seu definhamento e lá mergulha sorridente, sem sequer notar que cai.

Domingo, Julho 30, 2006

Dos conhecimentos intestinos

Examinai as publicações de uma época para compreenderdes sua situação espiritual. A operação há de se dar em duas frentes distintas e complementares: o exame das publicações periódicas, de um lado, e das publicações em geral, de outro.
Todas as publicações se prestam a esse trabalho a um só tempo digno e repugnante, à semelhança de uma coprocultura, destinado apenas a homens de constituição gástrica demasiado peculiar. Contudo, as publicações periódicas, em particular, revelam os limites da possibilidade de uma desregrada dieta. Os periódicos se distinguem das demais publicações porque nessas o princípio de expelição é interno, de modo que se prestam à observação da consciência que uma época tem sobre si, enquanto que naqueles, os periódicos, o princípio de expelição é externo (determinado pela própria periodicidade, tamanho, temática e público-alvo do jornal, por exemplo), o que faz com que a imperiosa necessidade de publicação obrigue a uma regurgitação involuntária de seus entulhos intestinos e inconscientes, mais ou menos como se através da publicação de seus jornais uma sociedade se encontrasse numa espécie de eterna diarréia induzida.
Um material não substitui o outro: é confrontando o que se pretendeu com o que se precisou dizer que o estudioso descobre o engodo de seu paciente, na discrepância entre o que se encontra na amostra fecal e aquilo que, supostamente, o paciente acredita ter ingerido.

Quarta-feira, Junho 14, 2006

Da Transparência

Não é beleza que falta à assim chamada arte popular. Tampouco sensibilidade, ternura, empatia — quaisquer que sejam as acepções mais ou menos imediatas por que esses termos sejam compreendidos. Também não se trata de recusar a esses objetos o poder de evocar deleitação estética, algum grau de satisfação ou agitação espiritual. Trata-se do excesso de transparência, e da conseqüente falta de promessa.
É como aquela moça que entra no café em que estamos, suas formas são lindas, seus traços delicados. Os cabelos podem escorrer macios pelos ombros, o caminhar erótico sobre os saltos, um vestido bonito revela as pernas macias, o decote atrai o olhar, talvez tenha aquele perfume de água e sabonete e, com tudo isso, talvez até nos arranque um sorriso e torça-nos o pescoço com algum resquício de discrição, mas não nos fará levantar e ousar um diálogo. Pois seus olhos são transparentes, sua alma é diáfana. Nós a fitamos e a atravessamos sem qualquer refração. E como que sem querer, com o peso da inevitabilidade das desgraças, nós sabemos, com ou sem consciência disso, de que já conhecemos o lugar de onde viriam todos os seus pensamentos e palavras. Sabemos já demais para que alguma promessa possa ser feita. Ela pode nos sorrir, e com isso nos trazer os vapores de uma ébria alegria, um agitar no corpo e no espírito, mas seu sorriso é transparente e nada promete: ele nasce e morre ali, na superfície dos seus lábios.

Segunda-feira, Junho 12, 2006

To see a World in a Grain of Sand...

A miséria também pode ser descrita por essa confusão que insiste em pensar eternidade em termos de tempo, como uma duração infinita, série temporal maximamente extensa, cadeia de instantes que se devoram uns aos outros ridicularizando como vão tudo que se esboce em algum ponto da linha infinita. Essa duração infinita depende de um infinito que a sustente e no qual o finito que somos possa, de alguma forma, tomar parte. Decerto não um mero infinito numérico, que se confundiria já com a própria ilimitada série de instantes que está a reivindicar um suporte, mas a necessidade que emana de um infinito atual que desse à série de instantes famintos um suporte e fundamento. Os deuses já foram esse suporte infinito e nossa convivência com eles era a chave da comunhão com a experiência do eterno. O eterno, contudo, nunca foi o abarcar dessa duração infinita, mas apenas a participação naquilo que era seu fundamento.
Quando a chave é perdida o resultado é claro: a vanidade invade o mundo como um fungo que vai minando o sentido de toda existência, o homem se torna – com suas idéias, afetos, e ações – uma “besta sadia”, um “cadáver adiado que procria”, pois o infinito numérico dessa duração obviamente não pode ser agarrado por uma existência finita, e nada do que acontecesse pelo meio do caminho teria ainda algum sentido. Tudo se esvai e se nega; uma certa ironia se salva enquanto uma nebulosa reivindicação de sentido ainda bruxuleia num recanto da alma humana, mas mesmo essa ironia se dissolve tão logo se volte para si e aquela reivindicação seja de vez silenciada. Poucos são os passos que levam do barroco ao nihilismo. E ainda assim se continua a pensar eternidade como tempo infinito em vez de ligá-la à necessidade.
O que importa, o que sempre importou, é a experiência da eternidade - não como a série cronológica infinita e fugaz de instantes que se devoram uns aos outros, principalmente quando desse Cronos nenhum Zeus é prometido - mas sim como a experiência da necessidade radical, que rasga essa série infinita e por nós inapreensível e se desloca para uma outra esfera, onde tempo não é mais questão.
Duratio est indefinita existendi continuatio, per aeternitatem intelligo ipsam existentiam, quatenus ex sola rei aeternae definitione necessario sequi concipitur, tempo como mera medida da duração, eternidade como identidade entre essência e existência: foram as preciosas lições de Spinoza que entraram para os subsolos de uma Modernidade revolucionária que seguiu um caminho bem diferente, apostando no tempo como realizador da natureza e escada da redenção.

Quinta-feira, Junho 01, 2006

Vanitas vanitatum

Matreiro admoestou o demônio: “Bedenk es wohl, wir werden’s nicht vergessen!”, e no entando os homens se esquecem, não obstante o pacto corra às mil maravilhas. ‘Tomai cuidado, pensai bem!, nós não nos esqueceremos!’, avisam as forças infernais nos instantes que antecedem o pacto. Avisam com a franqueza única dos demônios, de cujo charme faz parte enganar dizendo apenas verdades: ‘pensai bem, porque diabo tem memória!’, o que equivale a dizer: ‘vós vos esquecereis, mas isso não importa xongas!’.
O esquecimento daquilo que perdemos acompanha a ilusão de que tudo podemos ter — senão de fato, pelo menos de direito. Nosso tempo oferece a convicção de que é possível a existência sem cessões. E a arrogância dos possessos desmemoriados se mostra na satisfação com que desfrutam o que lhes resta, convencidos de que barganharam a própria alma, de que enganaram os demônios, de que a vida lhes saiu uma pechincha, simplesmente porque não conseguem se lembrar do que pagaram.
Por trás de toda arrogância se esconde a baixa auto-estima: somente a certeza de que a sua alma não valia muitos trocados é que permite que o demente acredite que não a vendeu.

Sábado, Maio 20, 2006

Esmola aos Sacerdotes

O século passado se iniciou sob os alarmados e revoltados brados de espíritos ainda cultivados, os homens são mais que o cumprimento de funções!, mais que máquinas!, e encerrou-se junto a desesperançados e ressentidos resmungos dos que, quase conformados com a derrota, ainda vasculham por migalhas: ah, se ao menos os homens cumprissem suas funções!…

Terça-feira, Abril 11, 2006

Höre! Höre! Höre! Alles was ist, endet. Ein düst'rer Tag dämmert den Göttern

Talvez o saudosismo de uma certa disposição do espírito que se expressa por trás das críticas à forma com que os tempos se desenrolaram e hão de se desenrolar não seja, de uma perspectiva teórica, a melhor abordagem do problema. Os deuses e a terra precisam estar ainda ali como referenciais eternos para que se fale em uma queda. Talvez a própria idéia de crise seja pouco eficaz. Mais que isso: talvez seja por demais generosa, otimista, quiçá estupidificada. Afinal, as quedas são sempre promessas. Como e a partir de onde dizer que uma cultura se degenerou? De onde vem a autoridade para fazê-lo, de onde fala a voz que aponta a degeneração sem ter sido, ela própria, degenerada?
E não é, afinal, a inexistência dessa voz o grande problema?
"Ihrem Ende eilen sie zu, die so stark in Bestehen sich wähnen".

Terça-feira, Dezembro 13, 2005

A astúcia dos afásicos

Há fundamentalmente duas funções que um título exerce: ou bem é um prelúdio, ou bem um contraponto.
O primeiro, instalada uma distância intransponível entre si mesmo e o texto, procura falar de um não-lugar. Sua missão é antecipar o que está por vir quase como se não fizesse parte de todo o espetáculo, como se fosse um olho desavisado de um deus onisciente que, meio que por acaso, tivesse tombado desde sua perspectiva eterna sobre aquele fragmento de pensamento e, até com certa displicência, deixasse escapar para os mortais uma antecipação do que estaria por vir.
O segundo rompe a linearidade e fala de um antes que já deve ser um depois. Seu lugar é o durante. Como o contraponto de uma sonata, abre um jogo com o texto e procura torcer a vista do leitor. Ele sabe que o texto não dá conta daquilo que quer agarrar. Matreiro que é, corre a volta no campo dos sentidos e, de longe, grita para o texto: aquilo que o texto queria agarrar cai numa cilada, fica entre a gritaria do título e do texto e, se não chega a ser dito, é tocado em seu silêncio.
Na verdade, todo título – mesmo o francamente ruim - cumpre sempre as duas missões, ainda que eventualmente de forma precária.
Raro é encontrar o leitor que ouça a gritaria.

Da civilidade

A civilidade não é apenas a arte da convivência, mas é também a arte de parecer invisível. Dois em um: a civilidade é a arte de conviver tão agradavelmente de modo que até pareça que não se está lá. Coisa para nobres, enfim.
O resto é bajulação.

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

Por trás do rigor da tolerância

Estufam o peito arrogantes e falam como se proferissem, como se tivessem tesouros a compartilhar. No olhar, um brilho de vaidade: crêem ter surpreendido o interlocutor numa falácia e, quase condescendentes, permitem que escape por entre o sorriso do que julgam ser a inteligência aquilo que lhes parece a solução de todos os conflitos:
- Tu generalizas... – sentenciam livorosos.
Se o estômago vos permitir, tentai fazer com que entendam que, em geral, discurso individualista, particular ou especial são meros pomposos nomes para designar a boa e velha fofoca.

Terça-feira, Novembro 22, 2005

Os insultos do nosso tempo

Quando quiserdes insultar com discrição, o melhor caminho é vos mostrardes surpresos pelo destinatário de seu elogio cumprir exatamente o que dele se espera. Poucos ouvidos estarão prontos para reconhecerem o insulto, é verdade, mas o prazer de insultar é egoísta e quase indiferente ao fato de o insultado conhecer seu papel: muitas vezes até, bem o se diga, o insulto é ainda mais aprazível, por si mesmo justificado e redimido, quando passa invisível pelos ouvidos bestificados.
Estamos no tempo sombrio em que o desempenho das funções essenciais arrebata corações. Seria engraçado – insultante, na verdade - dizer que um determinado piloto de aeronaves é um bom piloto apenas porque é capaz de decolar, pilotar e pousar sem levar à morte dezenas de pessoas. Dizei que uma comida é boa porque alimenta bastante e que aquela pedra é sensacional porque se pedrifica exemplarmente!
A máxima destinação nunca se esgota no mero exercício de uma função – ainda que esse exercício tenha se realizado de forma numericamente superior ao ordinário. Afinal, um escritor que escreve bem é só um tantinho melhor – se chegar a ser algum tantinho, enfim - do que um imbecil diligente em sua imbecilidade.

Uma história mal contada:

"Os deuses jamais desculparam totalmente os homens do crime de Prometeu. O filho de Jápeto, ao roubar o fogo sagrado do Olimpo, deu-nos o que se costuma chamar de nosso maior tesouro: a razão.
Mal se percebe com clareza a terrível vingança de Atena, que furiosa e não satisfeita em enviar Pandora aos homens, tramou algo ainda infinitamente mais cruel.
A deusa de glaucos olhos, no fundo bastante ressentida por não dispor dos encantos de Afrodite e se ver condenada a só ser notada pela sua inteligência, despejou sobre a humanidade, aproveitando o ensejo oferecido pelo roubo de Prometeu, seu mais profundo ódio contra sua condição de mulher mal-amada.
Que o fogo roubado incendiasse os homens incessantemente; e eis o requinte do sadismo feminino: que idiotizado, o homem ainda se julgasse especial e enchesse o peito de orgulho da sua condição de churrasco dos deuses.
E no dia seguinte, ao despertar de um sono agitado, um velho sábio afirmou: 'tudo é água!'. O castigo dos deuses fora entregue.
Assim nasceu a Filosofia."

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

O Ödipuskomplex do Racionalismo

Ao contrário do que um certo moralismo afetado se apressaria em pregar, a vileza nunca representou ameaça à virtude. Não, tampouco um crime ameaça a legislação que o condena. Antes disso: a sua existência a justifica.
Ab-surdus: aquilo que está para além de nossa surdez, nossos sentidos, lá onde eles já não mais alcançam. Sua presença, contudo, nunca foi um risco à audição. Muito pelo contrário: o absurdo sempre fora a derradeira fronteira que demarcava rigidamente um campo de positividade. A impossibilidade de qualquer outra possibilidade, anulação das estruturas de constituição de um discurso, o limite depois do qual todas as narrativas haveriam de se dissolver.
Ao estabelecer que, não importando de onde se partisse, nem tudo poderia ser dito, o absurdo era o espaço da negação, da grande interdição, que submetia cada voz a uma determinação que, em lhe ultrapassando, concatenava-a à dignidade e ao valor de uma eternidade. Negativo comum de todas as vozes, a presença do absurdo era o campo comum de todas as perspectivas, onde todas se faziam irmãs através de suas negações. Sim, ponto arquimediano às avessas, que fundava indiretamente a possibilidade e a dignidade do que seria dito ao demarcar aquilo que não seria: raductio ad absurdum.
Um dia, contudo, quando se quis alterar o mundo, os homens absorveram o absurdo dentro da racionalidade e, de um só golpe, aniquilaram ambos. O absurdo não foi superado, mas suprimido. Condicionando o absurdo às determinações de uma dada perspectiva, tornaram-no uma ficção qualquer, um capricho regional, quase uma gracinha, já sem qualquer autoridade sobre as outras aberturas de sentido. Órfãs e ­­­- vale até mesmo dizer, com um quê de psicose -, as narrativas todas se espalharam em infinitas direções: não havia mais lugares proibidos e, conseqüentemente (o que já era tarde demais para que compreendessem), não havia mais justificativas para que se assentassem em lugar algum.
Sim, puro nomadismo: e ainda há quem se orgulhe de ter voltado à idade das pedras.
O absurdo foi o pai da razão.

Sábado, Novembro 12, 2005

Isso que também se chama amor...

"Pour toi mon amour

Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
De lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
Mon amour"
Jaques Prévert

Sexta-feira, Novembro 11, 2005

A Experiência e o Perigo

Sim, toda experiência é interpretada. Não, as experiências não são apenas interpretações.
Reduzir experiências a interpretações é se esquecer do perigo, é ser etimologicamente imbecil.

Como motivar um inseto?

Se uma mosca está presa em uma garrafa e, por algum motivo, crê-se que de lá ela deve sair, ou bem ela irá para uma outra garrafa, ou bem para o grande mundo em que todas as garrafas estão contidas. Nesse último caso, o salvador da mosca precisa trabalhar com a premissa de que há um suporte último e fundamental em que todas as garrafas se apóiam. Naquele primeiro, por outro lado, o nosso herói precisa ser capaz de dizer, por algum critério real, que uma garrafa pode ser dita melhor que a outra. Tanto em um caso quanto em outro, consegue-se salvar o inseto.
Caso contrário, se as garrafas são infinitas e incomensuráveis e nenhuma imagem comum de mundo as fundamenta, nada, nada nessa já então maldita existência poderia justificar que a mosca procurasse voar para fora de sua garrafinha.
Qualquer palavra proferida, principalmente a que se vendesse como filosófica, já valeria tanto quanto um relincho.

Sexta-feira, Novembro 04, 2005

Pequena Grande História dos mundos

Não se trata de lamentação. Compreendei, é importante: houve duas, e não apenas uma queda.
Lá, in illo tempore, no tempo mítico em que tudo era atualmente uno, não havia signos. Esses só existem depois da primeira queda, depois do primeiro fruto da árvore do conhecimento, quando uma fratura se instaura. O Bom e o Mau aparecem, o conceito e o objeto, essência e aparência não mais coincidem.
Veio então o tempo em que coisas eram coisas e palavras eram palavras, e que a realidade, portanto, era algo não só independente de suas descrições como também a pedra de toque na avaliação de todos os nomes. O homem decaído ganhou uma tarefa clara: encontrar o verdadeiro nome do mundo, chave de compreensão genética de toda a realidade e de redenção, retorno à unidade fundamental.
Os filósofos, contudo, não encontraram o nome do mundo e fizeram uma descoberta de uma só vez genial e diabólica: não havia mundo para além dos nomes, nenhuma realidade para além de suas infinitas descrições. Eis a segunda queda. Num perverso sentido, uma unidade é reconquistada, mas está às avessas. Uma vez mais coincidem a palavra e a coisa, mas agora uma diferença fundamental e irrevogável se instala: a coincidência se deve à própria aniquilação das coisas, sua redução aos seus nomes. Os filósofos descobrem que só o que há são imagens do mundo, incomensuráveis entre si, e todos os nomes são tão somente efeitos das potencialmente infinitas e essencialmente contingentes imagens do mundo de onde foram gerados.
Orgulhosos de suas descobertas, que permitem aos mais incautos fazer chacota dos antepassados que entregaram inúmeras gerações na já então absurda tarefa, os filósofos não mais percebem que a segunda queda eliminou toda promessa de redenção que se abrira após a primeira. Tempo de esquecimento, não há mais saudades de casa, não há mais tarefas. Tudo o que há são palavras divertidas e essencialmente equivalentes.
Não, não haverá uma próxima queda. Nada há depois do esquecimento. Para os que ainda não se esqueceram completamente, contudo, há uma e somente uma tarefa fundamental.

Quinta-feira, Novembro 03, 2005

A Filosofia no Séc. XX

Todos nos lembramos da história do parvo e vaidoso rei que, tendo-lhe sido prometidos novos e mágicos trajes, que apenas os mais inteligentes olhos enxergariam, desfilou nu pela corte por não ousar confessar sua suposta estupidez. Quando crianças, todos nós achamos muita graça do ao mesmo tempo néscio e medroso silêncio que se fez em torno do monarca, da hesitação coletiva em declarar o que já estava muito claro.
A fábula é bastante precisa: foi uma criança que deu o primeiro passo e bradou, com toda a coragem dos que pouco têm a perder, que o rei estava nu, pelado!, desencadeando, após alguns instantes de hesitação, a sonora, descontraída e um tanto quanto estúpida gargalhada do povo.
Por inúmeras gerações, a história encantou crianças de todas as terras, crianças maravilhadas com a audácia do pequeno herói e envaidecidas com a idéia de que foi justamente um pequenino o que teve, ao que parece, a coragem de dizer o que todos já sabiam. Os adultos, contudo, deveriam compreender, ao contar essa história, que absolutamente não se trata de coragem, mas só e tão somente da explosiva combinação de inocência e irresponsabilidade.
Ora, ninguém jamais ouviu o que aconteceu com o reino após o divertido evento. Não me tenhais mal. É compreensível – e é até mesmo louvável – o gesto da criança. Afinal, se as coisas são como são, alguém precisa dizê-lo. No entanto, o ridículo – não obstante não menos compreensível – é a reação da multidão.
Não sejais palhaços! Antes de rirdes de um rei pelado, tende por perto um bom alfaiate (bem como o valor justo a pagar por trajes reais).

Terça-feira, Novembro 01, 2005

literatura pequena

Há uns tantos por aí que encontram na suposta condição de minoria o mote para uma carreira medíocre. Da arte à política, passando pelas coisas do pensamento, a defesa de uma causa oprimida é sempre um bom pretexto para se camuflar o freqüentemente precário talento e a invariavelmente torpe disposição do espírito. O oprimido ressentido é uma espécie peçonhenta que em nenhum momento se dispõe a se apropriar da cultura que lhe domina; não!, ele prefere ignorá-la, expelir subprodutos, encarcerar-se para sempre nos limites do kitsch e vangloriar-se de sua franca incompetência para competir em pé de igualdade com aquilo que lhe oprime. Tivesse um espírito mais nobre e algum talento para sua atividade, haveria de se vingar com engenho e bom gosto, apropriar-se dela para ironizá-la, pervertê-la de dentro e, em corrompendo-a, enriquecê-la.
Contudo, essa é a tarefa dos nobres em sua sutileza. O que se encontra, ordinariamente, passa longe de apropriações. ‘Por que se arriscar a montar o cavalo, quando se pode tentar envenená-lo?’, assim pensam os ressentidos. Proliferam-se como mofo as vozes das minorias enquanto minorias, a lamentação esverdeada dos rastejantes que, com aversão metonímica, do ódio contra a opressão vão ao ódio contra a própria grandeza sem desconfiarem que em sua estupidez trabalham contra si mesmos e contra todos.
Numa palavra: fora tanta afetação! No dia em que a mulher for menos mulherzinha; e o gay, menos veado; e o negro, menos crioulo; e o idoso, menos velhinho; e os pobres, menos coitados; e a existência, em geral, menos carnavalesca, então talvez todos sejam capazes de tomar parte, desde suas especificidades engrandecedoras, na unidade do projeto de nossa cultura.

Dos Pactos

Posto que não somos deuses nem demônios, estamos sempre a serviço de algo que em nós não se esgota. Podemos está-lo, em termos do século XVII, adequada ou inadequadamente, isto é, podemos ser também a causa da causa que e por que somos, ou simples e blablablentemente desencadear efeitos com a irresponsabilidade de toda parvoíce.
Não se trata, então, de empenhar ou não a própria alma, uma vez que ela está sempre em jogo. Toda a questão é saber com que tipo de forças se está tratando e, sobretudo, de que espécie de moeda se constitui o cacife disponível.

Sábado, Outubro 29, 2005

Revolucionários

O caminho mais curto - e mais nefasto - para se acabar com um fato injusto é esquecer o conceito de justiça.

"For here is the chief and most confounding objection to excessive scepticism, that no durable good can ever result from it; while it remains in its full force and vigour. We need only ask such a sceptic, What his meaning is? And what he proposes by all these curious researches? He is immediately at a loss, and knows not what to answer. A Copernican or Ptolemaic, who supports each his different system of astronomy, may hope to produce a conviction, which will remain constant and durable, with his audience. A Stoic or Epicurean displays principles, which may not be durable, but which have an effect on conduct and behaviour. But a Pyrrhonian cannot expect, that his philosophy will have any constant influence on the mind: or if it had, that its influence would be beneficial to society. On the contrary, he must acknowledge, if he will acknowledge anything, that all human life must perish, were his principles universally and steadily to prevail. All discourse, all action would immediately cease; and men remain in a total lethargy, till the necessities of nature, unsatisfied, put an end to their miserable existence. It is true; so fatal an event is very little to be dreaded. Nature is always too strong for principle. And though a Pyrrhonian may throw himself or others into a momentary amazement and confusion by his profound reasonings; the first and most trivial event in life will put to flight all his doubts and scruples, and leave him the same, in every point of action and speculation, with the philosophers of every other sect, or with those who never concerned themselves in any philosophical researches. When he awakes from his dream, he will be the first to join in the laugh against himself, and to confess, that all his objections are mere amusement, and can have no other tendency than to show the whimsical condition of mankind, who must act and reason and believe; though they are not able, by their most diligent enquiry, to satisfy themselves concerning the foundation of these operations, or to remove the objections, which may be raised against them."
Hume, por mais surpreendente que pareça num primeiro momento.

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

A tolerância demoníaca

As multidões costumam pensar as forças do Mal como forças de dissociação. A imagem não é de todo falsa, mas tomai cuidado com ela, porque nem tudo o que corrompe a integralidade o faz por dissociação. Tende certeza de que em uma porca bricolagem de fragmentos de mundo um diabo se realiza muito mais do que em simples rupturas.
Por isso, prestai atenção e tomai cuidado com as vozes que, por toda parte, camufladas de pregações de respeito às diferenças, semeiam uma degenerada indiferença, uma cancerígena tolerância, pois existem dois caminhos para se conviver com a alteridade: a mútua colonização e a mútua aniquilação. Vós escolheis. A nobre compreensão da alteridade é sempre uma agonia, e é na diferença inefável e irreconciliável, nas sobras incompreensíveis, naquele certo desajuste incorrigível, lá é que habita o nobre respeito e a amizade.
Assim, se um tal vos diz com sorriso demente: ‘eu vos compreendo totalmente’, não hesiteis: atirai-lhe indignados no focinho uma sonora bofetada.

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

"man verdient wenig Dank von den Menschen, wenn man ihr inneres Bedürfnis erhöhen, ihnen eine große Idee von ihnen selbst geben, ihnen das Herrliche eines wahren, edlen Daseins zum Gefühl bringen will. Aber wenn man die Vögel belügt, Märchen erzählt, von Tag zu Tag ihnen forthelfend, sie verschlechtert, da ist man ihr Mann, und darum gefällt sich die neuere Zeit in so viel Abgeschmacktem. Ich sage das nicht, um meine Freunde herunterzusetzen, ich sage nur, daß sie so sind, und daß man sich nicht verwundern muß, wenn alles ist, wie es ist."
Goethe, num momento de desabafo.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Os niilistas e suas palavras

Há endemoninhados que gritam por aí, por todo lugar, que a verdade é plural. E dizem com orgulho, alvissareiros, poder-se-ia até mesmo falar: proclamam fazendo pose de ungidos. E de fato acreditam no que expressam, daí serem tão perigosos. Os endemoninhados amam o que dizem, e amam com uma tal passionalidade que sequer são capazes de desconfiar de que estão a amar meras palavras. Não vêem, em meio às paixões furiosas, que nada estão a pensar.
Talvez ajudasse — o conselho é de Schopenhauer — caso se dedicassem ao aprendizado de línguas estrangeiras. E eu acrescento: geometria, meus filhos! Línguas estrangeiras ajudam a aprender a separar as palavras dos conceitos que elas representam; a geometria, a compreender a consistência intrínseca de um conceito; e aqueles que de ambas as operações não são capazes se encontram prestes a acreditarem que o fato de gritarem a plenos pulmões alguma coisa como ‘eu concebo um círculo quadrado!’ seja o bastante para que estejam a conceber algo.
O exorcismo, nesse caso, consiste em mostrar ao possesso que não obstante possa juntar palavras tanto quanto lhe apraza, não pode fazê-lo com conceitos. Não importa a quantidade da pirraça: que ele esperneie, grite, urre, arranque os cabelos, role pelo chão, chore, gema, repita a noite inteira e faça os amigos repetirem, e faça mesmo o mundo inteiro repeti-lo, e nisso acreditar, e que pessoas se matem por essas quimeras — o conceito do círculo continuará pela eternidade incompatível com o conceito do quadrado, ouvidos moucos para toda essa falta de compostura, não importa quantas vezes lhes mudem os nomes ou os declarem unidos. Words, words, words.
O mesmo vale com a verdade. O plural da palavra é truque simples da nossa gramática; o plural do conceito, uma quimera.
Um niilista é um moço endemoninhado que vos fala como que de círculos quadrados.

Os que escrevem com palavras

É claro: todo aquele que escreve, fá-lo com palavras. Poucos, contudo, entendem o significado dessa operação: apenas esses podem e devem cultivar o perspectivismo.

Segunda-feira, Outubro 17, 2005

Do Horário de Verão

Aproximamo-nos do verão.
Os dias amanhecem mais cedo no verão. As noites são menores. O ar é mais quente, as pessoas mais rápidas, os sorrisos mais estúpidos, os cardápios são mais leves no verão.
O verão é o tempo dos maricas.

O auto-elogio da estultícia

É curioso observar que sempre que se está a discutir sobre inteligência uma alma jornalística se ergue com voz de profeta descendo do monte e profere:

— É preciso lembrar que inteligência não é o mesmo que erudição… — e todos se entreolham com ar de quem se percebe idiota e balançam a cabeça como sinal de aquiescência irrestrita.

A observação insinua que uma é algo muito importante e admirável enquanto a outra não passa de papagaíce. É claro, é sempre por demais conveniente se lembrar dessa distinção quando se supõe inteligente e se é incapaz de cultivar o espírito. Termina-se por reproduzir, enfim, essa odiosa imagem da nobreza e dignidade da ignorância.

Vale uma voz conciliadora: inteligência sem erudição é vazia, erudição sem inteligência é cega.

Sexta-feira, Outubro 14, 2005

Por que ler os clássicos?

Sim, é verdade que alguns assim chamados artistas populares conhecem bem a natureza humana. Concedei, contudo: por que não preferiríamos a esses papagaios aqueles que a inventaram?

Quinta-feira, Outubro 13, 2005

Esclarecidamente

Tende em mente: a essência do demônio é adverbial.

Blablablices

Aqueles que acham coisas demais não devem ser ouvidos - não percai vosso tempo. O achado é sempre outro dentro em breve, tal como a importantíssima primeira página dos jornais que embrulha peixes na feira do dia seguinte.

Domingo, Outubro 09, 2005

Effectûs cognitio à cognitione causae dependet, & eandem involvit

Se um néscio vos diz:

Pássaros verdes não podem mais ser engaiolados!

Respirai fundo e sorride-lhe.

— Responda-me, bom amigo, se tua sinceridade to permitir, — perguntai-lhe capciososcom quantas ditosas e inumeráveis cores o teu pássaro apareceria à criança que ainda não aprendera o ‘verde’?

Sexta-feira, Outubro 07, 2005

Das traduções

Uma má tradução reduz, uma boa tradução educa. A má elimina a tensão entre as línguas, a boa a desperta. Um mau tradutor é um comunicador, um bom é um mensageiro. Aquela informa, esta dialoga.

O mau tradutor dissolve no familiar o que é estranho, o bom se torna familiar do estrangeiro. Aquele conhece muitas palavras e tem boa memória, este se esquece metodicamente de si porque aposta em se reencontrar no avesso da estrangeiridade.

Uma má tradução se deve à fama do texto; uma boa, à sua dignidade. A má tradução se reduz a comunicar conteúdos aos que ignoram o original — é socialista; a boa educa, tomando parte nos desdobramentos da missão daquilo que se destina, pela altivez de sua própria natureza, à universalidade — é aristocrática.

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

Heimweh

Saudade do lar — assim definiu Novalis a Filosofia. Um impulso por se fazer por toda parte em casa — explicou em seguida. É isso: a filosofia exige um quê de estrangeiridade. De Aristóteles a Adorno, passando por Descartes, Spinoza, Hegel e tantos muitos outros, estamos é repleto de histórias de filósofos constrangidos pelos sotaques carregados de suas terras natais, ou obrigados a reencontrar a vida em uma nova cultura. A estrangeiridade da Filosofia não é apenas uma metáfora poderosa, é também um dado histórico, afinal.
Fazer-se em casa por toda parte, primitivo impulso de colonização, tornar o outro parte do mesmo, em uma idéia: dom(us)-esticar. Por essa razão Odisseu é o padroeiro de todos os filósofos, o mais eloqüente ícone disso que é ou foi a Filosofia. O impulso de ir além sendo norteado pela saudade da pátria. Um dia o viajante chega em casa, retorna à mesmidade, mas ele próprio já não é mais totalmente o mesmo, pois se alterou junto à alteridade que domesticou. Seu regresso torna a casa mais rica, repleta de experiências outras que coletou, que iluminam e alteram a mesmidade. Para tanto, contudo, é preciso infidelidade para consigo; em algum grau, esquecimento de si.
Em contexto totalmente diverso, Goethe disse substancialmente a mesma verdade: aquele que não conhece línguas estrangeiras, não conhece nem mesmo a própria língua. É isso: a estrangeiridade é a mediação necessária, o espelho negativo no qual Calvino disse que o viajante reconhecia o pouco que era seu descobrindo o muito que não tivera e que não teria.

Domingo, Outubro 02, 2005

La momia de la filosofia

"La filosofia se murió hace mucho tiempo — su momia y su esqueleto, desde hace generaciones y generaciones, se enseña a las gentes en las cátedras de filosofia de tal a tal hora. Lo que en esas cátedras se decía era más o menos ingenioso, preciso, ameno — pero no era nada que en última instancia nos importase. Aquello estaría mejor o peor — no iba con nosostros. Ahora bien, la filosofia es algo que, si es filosofia, tiene por fuerza que suscitar en nosotros terror, entusiasmo, desazón, curiosidad, profunda delicia, exaltación. Eso es lo que se produce en nuestra vida en sus momentos culminantes, cuando el vivir se estira, se acrece y siendo vivir es más que vivir. La filosofia, si es algo de verdad, no por simple convención y ganas de hablar, si es algo no puede ser una gris y nula cosa que pasa en las cátedras sino algo que pasa en cada uno de nosotros, que es cada uno de nosotros.

Pero si alguien es hoy capaz de hacer una filosofia, de filosofar en ese único auténtico sentido, esto es, dicho concretamente, sin ocultación, sin atenuamiento, se es capaz de filosofando con el mayor rigor hacer llorar, y hacer reir y hacer estremecerse alos oyentes, no por capricho, no por artificio, pura y simple, y rigorosa y exclusivamente filosofando ¿qué se diría de él? ¿Qué cara pondrían las gentes? ¿Qué extrañeza no sentirían y qué espanto y que risa, viendo que de pronto, la momia, el ridículo esqueleto que se enseñaba en las cátedras y que ‘no iba con nosotros’ comenzaba a moverse de verdad y a mirar y a ver y hacer ver y a decir, decires terribles, decires dramáticos, decires joviales que se apoderaban de nosotros, que nos poseían como posee a cada cual su propria y personal vida, por tanto que casi desde el primer instante entraba en nosotros con violencia a la vez dolorosa y deliciosa y se quedaba allí, dentro de nosotros, para simpre — es decir, que cada día la filosofia, al concluir la lección, no se quedaba en la cátedra, como un ave disecada en el museo de historia natural, sino que ‘iba con nosotros’?"

Ortega y Gasset

Terça-feira, Setembro 27, 2005

Os jilós hão de ser poetas

Deveis estar atentos à deslumbrante capacidade de superação da Natureza. Tanto a História quanto os Mitos nos maravilham com exemplos de pobres grandes criaturas que, a despeito da disposição inglória que a madrasta Natureza lhes ofertou, souberam contornar seus obstáculos e encantar nossa existência. Videntes cegos, compositores surdos, gênios feios, escultores leprosos,… reparai que muitos entre os grandes homens gozavam de saúde precária!
É nesse sentido e com essa admiração que o caso de um filósofo mentalmente retardado, como Mr. Peter Singer, deve nos encher de admiração e alegria. Trata-se do desdobramento dos encantos da Natureza, seu processo de contínuo aperfeiçoamento das espécies!
Um dia, haveis de ver, até os jilós conseguirão escrever belos poemas, e nosso mundo será finalmente uma gracinha.

Quarta-feira, Setembro 21, 2005

Dos Escritores Talentosos

Talento é coisa de pouca monta. O deslumbramento que homens talentosos são capazes de causar em nossa época é sintoma nítido da vitalidade dessa doença antiga que nos aflige. Talento é quantidade adverbial e não adjetiva: diz de como é feito, mas muito pouco do que se faz.

Talento nada significa além da capacidade de penetração no espírito alheio. É meio e não fim. Como um carro desgovernado, quando o talentoso é pobre demais para ter algo além de seu talento, tudo o que pode fazer é empeçonhar. Um autor é tanto mais repugnante quanto maior é a distância entre seu grande talento e a vileza de seu espírito.

O talento está para certos autores como as asas estão para as baratas.

Didatismo da Canalhice

É verdade: obscuridade não é profundidade. Mas clareza também não é virtude. Mais que isso, não raro é canalhismo. Atenção: se um autor faz tanta questão de ser "claro" é porque talvez já saiba que está a dizer tolices. As maiores tolices, reparai, se forem expostas de um jeito bastante claro, didático até, podem mesmo parecer verdadeiras hierofanias.
Se um escritor está mais preocupado com quem o lê do que com o que escreve, mantende um pé atrás: pregadores são perigosos.

Quinta-feira, Setembro 15, 2005

Dos demônios e seus sorrisos

O maior perigo dos demônios, já nos ensinava o mago do sertão, é que basta descobrirmos que eles não existem para que eles tomem conta de tudo. E tomam mesmo, com muita classe e sutileza, porque balbúrdia é coisa de endemoniados e não dos demônios. Ciciando tudo pelo que os espíritos baixos anseiam ouvir, inflam o peito humano de arrogância e pedem ação: demônio gosta é de muito trabalho.
Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert, es kommt aber darauf an, sie zu verändern, murmurou-se certa vez. O murmúrio fez-se grito, o grito fez-se ação, os demônios sorriram. Quem, senão os espertos e inexistentes demônios que tomam conta de tudo, poderia esperar dos filósofos algo diferente da contemplação teorética que, de um jeito ou de outro, fundava a essência do que tinham a fazer? O apelo retomava, de modo quase explícito para quem tem olhos um tantinho atentos, a vetusta separação entre teoria e prática, essência e aparência, forma e matéria. A retomada, contudo, nunca teve outra função senão o sorriso dos demônios.
Largai as interpretações do mundo, o verbo da vez é verändern. Ingenuidade ou parvoíce: pelo menos uma das duas é necessária para traduzi-lo por transformar. O que há de mais essencial na expressão se perde, escapa por entre os dedos frouxos da ignorância quando perde de vista o mais importante de tudo: o outro. Muito mais do que uma transformação, uma Veränderung é uma alteração.
Alterar, alterar o mundo!, gritam os endemoniados.
As alterações não são, rigorosamente falando, meros acidentes de uma substância, são já substituições. A outrificação do outro o leva às suas extremas possibilidades, como que virando-o pelo seu avesso. Alterar uma substância, que é em si alteridade, é conduzi-la à máxima radicalidade de sua estrutura até dissolvê-la sobre si mesma dando lugar a uma nova. Os demônios, todavia, não nos pedem que alteremos substâncias: alterar o mundo, o mundo!
A questão, entretanto, é bem mais grave do que uma má tradução pode dar a entender a princípio. A questão, toda a questão, é que não há o outro do mundo, uma vez que não pode haver o outro do que é a condição mesma da possibilidade de alteridade. Alterar o mundo não passa de um eufemismo barato para aniquilá-lo.
É por isso que sorriem os demônios.

Das Schlangenei

Quem tiver ouvidos já ouviu. Algo estranho acontece. Algo perigoso surge. Algo muito, muito sério se desenvolve pelas ruas, pelas esquinas, nos bares, dentro dos ônibus, na mídia, num simples atravessar de avenida do Centro. Parecemos por demais ocupados ou desinteressados, traduzimos o mal-estar na inocuidade de uma piada ou na infertilidade de um resmungo, mas o ovo da serpente vai amadurecendo bem ao nosso lado.
Há muito medo amorfo e desesperança. Breve é o caminho que vai da desesperança ao desespero. Estais certos de que sabeis o que podem os desesperados? Quão longe vosso olhar histórico é capaz de alcançar?
Um sem número de utopias de bolso se oferecem em qualquer sinal de trânsito. Pregadores de todas as formas, há um verdadeiro buffet de deuses à escolha dos famintos. Ah, foram-se os tempos em que as revoluções eram apanágio dos astros! Os filósofos se cansaram de interpretar o mundo e quiseram… alterá-lo. Os pregadores não mais apenas pregam e tampouco continuam sendo pregados. Eles agora fecham teatros e cinemas, eles dominam as rádios, as televisões, as editoras. Eles fundam partidos.
Lembremo-nos do filme. É como um ovo de réptil. É apenas um ovo, mas o embrião já traz todas as características do adulto, e se desenvolve tácito, quase imperceptível, e nasce pronto para provocar destruição.

Segunda-feira, Setembro 12, 2005

Der Todesrausch

A Embriaguês da Morte
uma fantasia de mosquitos
" 'Venham para a lâmpada!' gritava bem aventurada a pequena Zippa.
Suas asas ruflavam e duzentos mosquitos obedeciam sem refletir o grito da pequena Zippa - a bem-aventurada.
Junto à lâmpada, coberta por uma cúpula de seda verde, estava sentado um velho homem que comia seu jantar.
Então vieram Zippa e os duzentos mosquitos, e Zippa estava excitadíssima.
'Morramos! A morte é a parte mais doce da vida! Queremos morrer agora! Morramos!'
E todos os mosquitos gritavam com Zippa.
Com uma bem-aventurada gargalhada eles voaram de encontro à lâmpada quente e logo estrebucharam próximos ao jantar do velho homem.
Ele queria matar rapidamente os moribundos para que não tivessem que sofrer muito.
E Zippa gritava sorridente, enquanto esfregava as asas incandescentes.
'E daí?! Nós morremos agora com prazer! A morte é tão bela!'
E todos os mosquitos gritavam moribundos junto com Zippa.
E todos riram - e - morreram.
O velho homem terminou o jantar.
Ele estava com fome."
(a tradução é minha)

Sábado, Setembro 10, 2005

Dos Superlativos

O que se diz não informa apenas sobre o que se diz, mas bastante sobre o que se cala. Tomai cuidados com os adjetivos superlativos: eles adulam insultando, e beijando cospem um misto de ressentimento e asco. Em uma tela negra, qualquer insignificante ponto branco é descrito como uma verdadeira mancha.
Prestai atenção à facilidade ladina com que os íssimos afloram às vossas bocas! Dizeis às pessoas, com toda a costumeira espontaneidade da estultícia, que são belíssimas, inteligentíssimas, ou demais adjetivos que o valham — já que todos se prestam à manobra —, mas sabeis, ou poderíeis sabê-lo se fôsseis mais sutis, que elas são apenas dignas dos adjetivos frugais, que não lhes pagassem tamanhas flexões, ou que no máximo, no melhor dos mundos possíveis, mereceriam um robusto intensificador. Superlativos nunca!, pois são sempre insultos velados. O que acontece, se me cabe explicá-lo, não é as achardes belíssimas, mas apenas bastante belas, simplesmente belas talvez, suficiente ou quase suficientemente belas em tantos outros casos, e no assombroso vácuo de outros quaisquer predicados a beleza que era ponto, às vezes mero cisco, revela-se a expressão máxima daquela medíocre qüididade.
O que de exagerado temos a dizer é apenas um subterfúgio para não confessarmos o vazio absoluto de outras coisas a serem ditas, quer esteja esse vazio no objeto elogiado, quer esteja, é bem verdade, em nós mesmos.

Quinta-feira, Setembro 08, 2005

Descatastrofização

Quandoalguns poucos anos, numa época, contudo, muito distante da nossa, Benjamin nos falou que a era da reprodutibilidade técnica aniquilava a aura da obra de arte, não desdobrou suas idéias até ter pensado na aura que recobre um outro tipo de evento, mas cuja aniquilação não é menos problemática: a da catástrofe. Benjamin, no mesmo ensaio, chegou a articular o movimento de estetização da guerra, mas não fechou a conclusão inevitável, embora tenha deixado tudo o que precisaríamos para fazê-lo.

A aura é a existência única, o aqui e agora rigidamente demarcados, a autenticidade da obra de arte em relação ao espaço e ao tempo. Um determinado quadro se encontra em uma determinada galeria de um certo museu (a pergunta pela desterritorialização operada pelos museus é mais do que pertinente, aliás), e sem a reprodução técnica do mesmo é necessário irmos até para contemplá-lo. Ele tem uma existência dimensionalmente determinada, e essa determinação lhe confere o adjetivo único.

Todavia não foi apenas a obra de arte que se prestou à reprodução mecanizada, espalhando-se pelo mundo, emancipando-se de suas dimensões rígidas, perdendo seus referenciais de unidade, perdendo sua aura. Também a aura das catástrofes foi pulverizada. Uma desgraça, qualquer que seja, tem dimensões muito sólidas. Aconteceu em um determinado lugar, num determinado tempo, envolvendo determinados objetos. Há uma aura aqui. Os carros diminuem a velocidade ao passar em frente a um acidente porque aquele acidente traz, como tudo que possui uma aura, um valor de culto. É natural que assim aconteça. Por trás da mera curiosidade se esconde um tipo inconsciente e degenerado de reverência. Nossa época, porém, dispõe da tecnologia necessária para esvaziar o mundo de sua aura, em outras palavras, eliminar a possibilidade de culto. Ao se negociar tão elasticamente o valor de exposição de uma catástrofe (basta pensar nas imagens dos ataques terroristas e das tragédias naturais que são repetidas ad nauseam), reduz-se a um mínimo o seu sentido e unicidade.

A maior ameaça da sociedade panóptica, esse espaço que estamos construindo, com cada vez mais câmeras e microfones em todos os cantos, não é a falta de privacidade como temem os mais paranóicos, mas criação concomitante de um mundo que se torna a cada dia mais esvaziado de valor de culto, um espaço vítreo em que a aura não é mais possível.

Segunda-feira, Setembro 05, 2005

Spasimi d'ira... spasimi d'amore!

Não raro a essência do encanto de um universo estético se deixa perceber em alguma fragilidade. Sutileza que, decerto, ganha diversas formas de acordo com o universo em questão. Um traço delicadamente inesperado, um movimento discreto, uma palavra, um verso, um acorde: as grandes obras estão sempre a um passo do fracasso total e é precisamente nessa grande ameaça que reside seu poder.
Uma montagem da Tosca como a de Benoit Jacquot caminhava com firmeza em direção à perfeição. Elenco, regência, soluções cênicas, figurino, orquestra, tudo ia maravilhosamente bem até que um imperdoável descuido transforma o clássico de Puccini num dramalhão à la novela das oito.
Certo, concedamos: Puccini, não fosse a música, nunca estaria muito distante de se confundir com uma telenovela: Mimi é uma chata na maior parte do tempo, Cio-Cio-San desperta tanta pena que quase nos irrita e Calaf por muito pouco não vira um galã babão por cuja desgraça torceríamos por puro sadismo. As figuras, contudo, guardam sua dignidade em detalhes que, se perdidos, arruínam a obra inteira num compasso. É o caso da Tosca de Jacquot. A indicação no libreto é clara:
“E avanti a lui tremava tutta Roma!”, diz a bela Tosca diante do cadáver do pérfido Scarpia. Está saindo do gabinete quando — seu instante de redenção, o instante que salva toda a obra — volta-se para o corpo do barão, acende à sua cabeceira duas velas que estavam à mesa do jantar interrompido, apanha um crucifixo da parede e coloca sobre o peito do homem que tentou estuprá-la e assassinar seu marido.
Não, as heroínas de folhetim e de telenovelas não são capazes dessa cena. Ao menos, não da forma sem pieguice e sem caridade estupidificada com que Floria Tosca vela o corpo que acabou de assassinar. E são justamente esses trinta segundos de cena que a versão de Jacquot, de forma extremamente sintomática, suprimiu sem mais nem menos.
Lembro-me, se falamos desses naufrágios a partir de sutilezas, de uma já clássica desgraça que acomete, de vez em quando, algumas montagens de Hamlet. No cinema (as clássicas versões de Olivier e a de Zeffirelli são apenas dois bons exemplos) ou no teatro, não é incomum removerem a cena final em que Fortinbras restitui a ordem ao caos. O pequeno lapso transforma, em menos de um minuto, o que é a maior tragédia da modernidade num fuleiro draminha pequeno burguês.
Ah, se ao menos seguissem as indicações dos autores… Nelson Rodrigues tinha toda a razão: deve-se ser burro ao montar Shakespeare!

Domingo, Setembro 04, 2005

Dos relativistas

Um relativista, se usarmos a seriedade na hora de dizê-lo, é apenas uma abstração. Ninguém pode realizar a proeza de ser um relativista em todas as conseqüências do termo. Encontramos a limitação dessa abstração ao transpormos a idéia de um conceito geral para um sujeito empírico qualquer.
Enquanto conceito, o relativismo cria o fundamento teórico para se sustentar as maiores imbecilidades, com muitas das quais nenhum relativista concordaria. Do banal assentimento de que todo objeto tem vários lados, proposição bastante razoável cuja radicalidade é tão pequena que nem mesmo o maior dos conservadores hesitaria em concordar, o relativismo enquanto sistema conceitual leva à conclusão estapafúrdia de que todo objeto tem todos os lados.
É claro que ninguém disse isso. Uma tal assertiva não apenas viola a inteligência primitiva como invialibizaria qualquer constituição, qualquer processo vital, inviabilizaria mesmo sua própria enunciação. Ninguém disse, nem o próprio relativismo. Criaram-se, todavia, as possibilidades de dizê-lo, ou melhor dizendo, eliminaram-se as possibilidades de refutá-lo. Não no sentido de que tais conclusões passem por verdade (esse não seria o pior dos mundos possíveis), mas no sentido de que a própria idéia de "verdade" perde seu valor.
O relativismo logra remover toda a autoridade do discurso. Se todo discurso é apenas mais um discurso, e nenhum deles terá maior valor que outro, a iniciativa de dizê-lo é estuprada e aquele que fala não tem como deixar de ser visto e ver-se a si mesmo como alguém que faz o inútil: fim da ironia, resta o sarcasmo. Não existe valor onde não existe quantidade, hierarquia, autoridade e projeto. O relativismo permite a completa inutilização do mundo.
Entretanto, como já se disse, nenhum relativista concordaria com isso. Porque não há relativistas. Assim como, rigorosamente (e o advérbio aqui não é nada mais, nada menos do que tudo o que se perde), não se pode dizer de alguém que é um suicida até que esteja morto, não se pode dizer de alguém que é um relativista enquanto vive, fala, escolhe o sabor do sorvete ou se apaixona.
Quem se diz relativista é apenas alguém que ainda não se esclareceu.